The Flying Wine Drinker: Memórias VIII

Jestyn Reginald Austin Plantagenet Philipps, o Segundo Visconde de St. Davids, era — como deve ser todo britânico de boa cepa —, um homem excêntrico. 

 

Lord St. Davids  – como era chamado – adquiriu ou herdou (ou pelo menos assim o dita minha fantasia) uma escola em South Kensington, Londres, para poder ministrar aulas de História e/ou de Geografia para pré-adolescentes. Às quartas-feiras pela manhã. Sempre que lhe desse na telha.

Entre seus multinacionais alunos — a St. Davids School era uma desorganizada miniatura das Nações Unidas —, a futura Lady Fiona Aitken (atual Condessa de Carnavon, presente senhora dos domínios de Downton Abbey) e… eu. Lembro-me, por exemplo, de — sentado em um banco no Hyde Park onde lia livros de Charles Dickens como Great Expectations ou Nickolas Nickelby —, ver Fiona, sua irmã Sarah e uma coorte de alunos desfilarem pachorrentamente a cavalo em aulas matinais de equitação na primavera ou no verão londrinos.

Lembro igualmente bem de Lord St. Davids. Na época — e as percepções se distorcem com o tempo quando se tem pouco mais de dez anos — ele me parecia um velho. Um velho troncudo com cabelos castanho-avermelhados que rareavam. Tinha um rosto corado e nariz batatudo. Deveria ter uns cinquenta e poucos anos. Lembro também de mãos calosas forjadas por manobras com as cordas de seu barco (outro hobby que sempre mencionava). Mãos que gesticulavam com o giz; branco ou colorido. E lembro-me ainda de uma voz, rouca e ritmada, que contava histórias de sua família (que ele era capaz de traçar até o século XI). Histórias do Castelo de Roch, em Gales; de justas da Inglaterra medieval; de como perdeu suas botas de couro quando seu navio (cujo nome não recordo) foi afundado na Segunda Guerra; e até mesmo das trajetórias de rios em planícies.

Nunca sabíamos quando (ou se) ele viria dar aula. Mas foram meus melhores momentos na escola (embora talvez não tão assustadoramente memoráveis quanto as “aulas” de boxe). Talvez Lord St. Davids tenha sido uma das influências que me levaram, em alguma medida, a me tornar um “historiador”. E também um cripto-memorialista de blogs. Quem é capaz de saber o quanto é influenciado por que coisas da vida?

Um dia, em uma de suas aulas de História, Lord St. Davids lançou à turma uma estranha pergunta:

— Andando por uma estrada no mundo antigo, como vocês saberiam que estavam se aproximando de uma cidade?

E diante da perplexidade da turma, respondeu…

— Pelo cheiro.

E continuou sua digressão discorrendo sobre como as ruas antigas eram projetadas em “v” (para reter os dejetos no centro, e não nas bordas); sobre a expressão “Gardez l’eau!” (ou variantes) — utilizada sempre que penicos eram esvaziados pelas janelas —; e outros raciocínios (pitorescos, a meu ver) que se perderam na minha (falta de) memória… Mas uma de suas teses ficou guardada: que ao longo da evolução humana tínhamos trocado a percepção dos aromas pela visualidade. Que, hoje, seríamos capazes de discernir mais cores. Porém, de ter menos clareza quanto aos aromas.

E assim os aromas — ou, ao menos a consciência deles —, entraram na minha vida: por meio de um excêntrico nobre inglês… E, junto com os aromas, um subversivo estranhamento com relação ao próprio conceito de “História”. Eu, que começara a aprender a disciplina (no Brasil) como um rosário de nomes e datas a serem decorados, passei – sem ter muita consciência —, a intuir a “História” de um modo diferente.

* * *

Recostado na poltrona da sala depois de um dia de trabalho, resolvo provar um vinho. Escolho o Krasia May Petit Verdot 2012: aquele mesmo a cujas uvas fiz referência no TFWD Memórias II, neste blog. Precisava escrever notas de degustação para a Ficha Técnica do relançamento do site (ora em construção). Girando ritualmente a taça junto ao nariz — depois de ultrapassar o caramelo das barricas Taransaud —ocorreu-me a dúvida se o aroma de fruta que percebia era de cassis (groselha preta) maduro ou de açaí. Então lembrei-me de um diálogo com Anne Krebiehl — a Master of Wine responsável pelo painel de juízes (entre os quais me incluía) no último International Wine Challenge (abril de 2017), em Londres.

Em meio à discussão de um dos brancos, veio-me à memória um whiff de graviola que, evidentemente, não consegui traduzir. Ao explicar meu desconforto, mencionei a dificuldade de transpor minhas frutas “tropicais” para um contexto “europeu”. E o análogo desafio de identificar inúmeras berries (as quais mal sou capaz de reconhecer) e seus respectivos aromas (que são “padrão” como tasting notes)… Queixei-me, logo em seguida, do “eurocentrismo” dos descritores mais utilizados.

Ao ouvir isso, ela apontou para Jamie Goode (que estava logo atrás, ao lado de Tim Aitken) e mencionou seu último livro. Em particular, referiu-se às discussões relacionadas ao “relativismo olfativo”. O livro era o I Taste Red que — indo à caça na manhã seguinte —, encontrei na Foyles, da Charing Cross.

Apoio minha taça sobre a mesinha a meu lado e saio em busca do livro (que ainda não tinha lido): que melhores companheiros do que esses para uma noite nublada? Folheando ao acaso, entro imediatamente em contato, no capítulo 2, com uma referência a outro livro: Aroma: The Cultural History of Smell (1994), de Constance Classen, David Howes e Anthony Synnott. Goode, pelo que posso perceber, escora algumas de suas ideias nas anedotas inventariadas por esses autores.

Aprende-se ali que os Onge (das Ilhas Andaman, na Baía de Bengala) definem tudo a partir dos cheiros. Que até seu calendário é baseado no odor das plantas que florescem em épocas diferentes do ano. E, quando se encontram, perguntam: “Como vai seu nariz?”

Classen, Howes e Synnott seguem surpreendendo: explicam que os Bororo, no Brasil, associam os odores corporais à força vital dos indivíduos e que comparam o estado da alma ao hálito de cada um. Mais ao norte, no alto Xingu, alegam que os Suyá (ou Kisêdjê) classificam os animais por seus odores (e não por suas características físicas ou habitat). Até mesmo a identificação dos humanos varia de acordo com o sexo e com a idade.

E eu não fazia a menor ideia…

Relatam, ademais, que para os Dassanetch, da Etiópia, nada é mais atrativo do que os odores de vacas (que aludem a fertilidade e a status social). Constatam que eles se adornam com ossos e com couro; que lavam as mãos com urina e que espalham estrume em seus corpos para se mostrarem mais alinhados. Até mesmo as mulheres esfregam manteiga na cabeça, nos ombros e nos seios para realçar sua sexualidade.

Entrei em “modo devaneio”. E já com a cabeça fora de controle, infiltrou-se (em mim) inesperadamente uma citação que tinha lido (quero crer) em O homem e o mundo natural, de Keith Thomas, há mais de trinta anos. Discutindo a Sabedoria Divina em seus Philosophical Principles of Religion no início do século XVIII, o médico George Cheyne sustentou que “o Criador fez o excremento dos cavalos ter bom cheiro porque sabia que os homens estariam sempre na vizinhança deles”.

Contemporâneo do século XVIII, Jonathan Swift, então, interveio com a lembrança de que os abjetos Yahoos — seres que se assemelhavam aos humanos na terra dos impecáveis Houyhnhnms — quando doentes, medicavam-se com suas próprias fezes e urina. (Como quase tudo em Swift, tratava-se de um relato baseado em ideias concretas da Medicina de sua época).

Lembrei-me, então, das próprias viagens de Gulliver: de como elas começavam e terminavam em lugares conhecidos mas, no meio do caminho, embrenhavam-se em uma ficção (frequentemente ácida) de terras ignotas. Saindo de um porto inglês — e perdendo-se após alguns dias de viagem —, ele encontrava lugares como Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib (entre outros) para, finalmente, “achar-se” outra vez e aportar no “exótico” Japão. Quantos contemporâneos de Swift não teriam acreditado nesse percurso? E quantos contemporâneos cultos não teriam acreditado nele justamente por terem lido a Naturalis Historia de Plínio, o Velho, e entrado em contato com as figuras tais como o Sciapod e do Cynocephalus?

Será, portanto, que eu devo acreditar nos Onge, nos Bororo, nos Suyá e nos Dassanetch? Ou se igualmente devo acreditar (ou duvidar) que os Dogon, do Mali, se encantam com o cheiro da cebola enquanto que os Tâmils, na Índia, o consideram repulsivo?

Até que ponto devo acreditar nos meus próprios sentidos (e na relatividade deles)? Quem poderia me guiar por essas terras perdidas, na ausência do velho “bom senso” cartesiano? E — enfim, voltando a meu velho problema — como avaliar um vinho (e, adiante, escrever notas técnicas) com algum tipo de isenção de forma que um “leitor universal” possa saber do que estou falando?

Levo minha taça de Petit Verdot ao nariz. Escrevo: açaí. Que se danem os europeus! E que eu me preocupe com isso quando as traduções tiverem que ser feitas: meu vinho é do Hemisfério Sul! Minha cabeça imediatamente se inunda com aromas de carambola, cupuaçu, jabuticaba, graviola, mangaba e castanhas do Pará…Whatever!

Penso, em seguida, em escrever uma resenha sobre o livro de Jamie Goode. Anoto a ideia ao lado da palavra “açaí”.

Lembro o trabalho que deu elaborar o Petit Verdot e suspiro com o (literalmente) inebriante prazer de degustá-lo em companhia de tantas referências do meu passado. E mais uma vez — remoendo a Chinela Turca —, permito-me cochilar na poltrona com a certeza de que, da mesma forma que a boa Gastronomia é feita com bons ingredientes, os bons livros são feitos com bons livros.

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