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The Flying Wine Drinker: Memórias V

Madame Debril bem que me avisou: leve um lanche, bastante água e comece o caminho bem cedo. Sorri para ela e disse que faria isso. [Para não dizer o contrário!] Agora — sol a pino —, perdido na Route de Napoléon entre a França e a Espanha; suado, cansado, desidratado e tonto, sei que vou morrer.

Valle de Uco, março de 2010.

A data é 17 de julho de 1998 conforme atesta o carimbo que a própria Madame postou em minha Credencial del Peregrino. Vago encantado — mochila nas costas, concha pendurada — pelas ruas (ou será pela… rua?) de St.-Jean-Pied-de-Port [Donibani Garazi, em basco]; do lado francês dos Pirineus. Acho que já eram 11 horas quando resolvo subir a rue de la Citadelle e iniciar o Caminho de Santiago. Como só tenho pesetas, e não francos, tomo a decisão de não comprar nenhum lanche. Água? Bom… Dois cantis Trilhas e Rumos em minha cintura, balançando como cartucheiras no Velho Oeste, não iriam me desapontar…

Muitos quilômetros depois — de St. Jean, na França a Roncesvalles, na Espanha, são cerca de trinta! —, e em meio à subida de um aclive de 1.300 metros estou pronto para entregar os pontos. O sol não perdoa. Há muito meus cantis já secaram. Há pelo menos três horas não vejo ninguém; nem mesmo a fugaz bicicleta. Só vejo subida pela frente. Cambaleio; suado e tonto; minha visão (turva) só enxerga tons de verde e preto. De repente, começo a alucinar: um toco de árvore transforma-se em um gato. Uma colmeia (ou ninho de cupins), em coruja.

Minha garganta, seca. As lentes de meus óculos se tornam tão líquidas quanto a Modernidade de Zygmunt Bauman. Um cansaço… Um torpor invade meu corpo e tenho vontade de deitar e dormir. Mas sei que não posso fazer isso.

Súbito, contornando uma curva da estrada que serpenteia caminho acima — e do outro lado de um arame farpado que mal enxergo — vejo uma vaca. Sem saber se minhas alucinações estavam aumentando, tiro os óculos do rosto e os sacudo (para fazer escorrer o líquido). Olho outra vez e a vaca continua lá: alucinação, portanto, não deve ser. Aperto os olhos e firmo a visão: a vaca não desaparece! Mas há mais! A um par de metros da vaca, um bebedouro. Ali, o sol reflete-se sobre o limo proporcionando-me mais uma visão de verde e negro…

Corro para o bebedouro.

Mas no meio do caminho não havia uma pedra: estanco no arame farpado. Tento uma… duas… três… quatro vezes pular a barreira. Porém não tenho forças; exausto que estou. Pela camiseta rasgada, um filete de sangue escapa. A vaca olha pra mim e solta um longo e monótono mugido. Na borda do bebedouro metálico, uma rã — possível leitora de Aristófanes —, parece dizer “brekekekex, koax, koax”

Sentado — ou melhor, esparramado no chão e encostado sobre a mochila — se tivesse forças, teria chorado mesmo sem estar à margem do rio Piedra.

E eis que uma ideia genial (ou que, no momento, parecia genial) surge do nada! Se eu tirasse os cadarços dos meus tênis, amarrasse ambos e os atasse ao cantil, poderia jogá-lo no bebedouro e colher um pouco de água!

Teria a vaca sorrido pra mim (com certa cumplicidade)? Ou seria uma alucinação? E — falando francês como uma vaca espanhola — apenas emitiu:

— Meuh!

A rã, cética, repetiu apenas seu texto clássico: “brekekekex, koax, koax”. E saltou quando o cantil caiu dentro d’água, espalhando o limo e a sujeira…

 

* * *

 

A história se repete: a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa. [Alguém ainda lê Marx?]

Olho para meus pés e vejo: estou de tênis. Poderia tirar os cadarços, amarrar um no outro e… enforcar o Cérbero. Na minha imaginação, vejo as cordas no seu pescoço com tantas voltas quantas pode suportar uma “mulher-girafa” da Birmânia. O calor… E então… Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.

Não. Não estou na Argélia, Cérbero não é árabe e eu também não sou Albert Camus.

Sentado confortavelmente em seu cortador de grama motorizado, Cérbero me olha como uma vaca basca. Seu vocabulário, no entanto, parece mais restrito. Volto, então, à carga. Falo da maneira mais pausada possível.

— C O M O – P O S S O – C O N S E G U I R – Á G U A ?

— (…)

— Preciso comprar água. Preciso comprar algo para comer. Por favor, me ajude!

O rosto de Cérbero, então, se ilumina:

— Por que não vai a Vista Flores?

— Porque em Vista Flores, neste domingo quase à noite, tudo também deve estar fechado!

— (…)

— Entendeu? — tentei sorrir…

Sííííí… — parece mugir — Então por que não compra algo na Cantina?

CANTINA!!!??? — quase grito.

— O dono da Pousada tem uma Cantina… Fica logo ali… — aponta para uma construção há poucos metros de onde estávamos parados.

— Pelo amor de Deus! Por que não me disse antes! E como eu consigo falar com ele? Está aberta?

— (…)

— Então? — insisto.

— É só… telefonar pra ele.

— E onde ele está?

— Aqui do lado! — e aponta para uma outra construção.

 

* * *

 

Quinze minutos depois, tenho água, um refrigerante duvidoso e biscoitos: cream-crackers e Oreos. Estou salvo! Despeço-me do dono da Pousada e, com o saco plástico salvador nas mãos, dirijo-me ao chalé. No caminho de volta, reencontro Cérbero. Mais calmo, não resisto e resolvo puxar conversa:

— Ei! Meu chalé tem três quartos. Mas duas portas estão fechadas.

— (…)

— Então? — sustento seu olhar, inquisitivo.

— Mas o senhor vai dormir nos três quartos!? — ele responde — Por que reclama tanto?

Estou com preguiça de tirar os cadarços dos tênis. Com um sorriso amarelo, então, despeço-me e dirijo-me ao chalé. Uma longa noite me espera… De costas, ouço a partida do motor e o renascer do zumbido do carrinho cortador de grama.

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