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The Flying Wine Drinker: Memórias II

Mendoza não é a Borgonha. Não se espera que, no Vale de Uco, algum fator climático transforme uma colheita promissora em um desastre da noite para o dia. Ainda assim constato — sob o sol inclemente —, que minhas petit verdot precisam ser colhidas. Se elas falassem, talvez estivessem implorando…

Valle de Uco, 12 de abril de 2012

Como um Chefe de Estado, passo em revista as tropas. O que vejo me assusta: o estresse hídrico transformou quase toda a plantação em passas. Provo as uvas. A doçura da polpa e o marrom homogêneo das sementes confirmam o que penso. As uvas imploram pela colheita. Refratômetro na mão meço, assustado, BRIX acima de 30. Em breve, nenhum fermento da Bodega será capaz de transformar os açúcares em álcool em sua totalidade.

Ainda assim o agrônomo insiste que só deveríamos colher as uvas em duas semanas. Preciso tomar uma decisão. Aliás, preciso tomar várias decisões. Sozinho há dez dias no Valle de Uco é como se minha vida tivesse parado. Volto para o Hotel Fuente Mayor. Angustiado, decido escrever um e-mail para Gustavo González — enólogo californiano que está junto comigo neste projeto — e trocar ideias. No jantar, tomo uma garrafa inteira de torrontés com a entrada e, depois disso, outra garrafa inteira do merlot Pulenta Estate (2008) com o prato principal. Nem sei como cheguei até o quarto para dormir…

Manhã seguinte. Saio do banho e, em meio às névoas de minha miopia, molhado e descabelado, me enrolo em uma toalha subdimensionada. Ligo — ou penso ter ligado — o laptop. Pego meus óculos sobre a escrivaninha. Com os óculos, consigo discernir, pela janela, o Cordón del Plata em um dia nublado. Decido abrir o correio eletrônico. Mensagem de minha secretária solicitando uma transferência bancária. Mensagem do Gustavo pedindo que lhe telefone. Mensagem do escritório querendo orientações sobre algum projeto (do qual já nem me lembrava). Uma dezena de mensagens.

Coloquei-me em modo multitask e comecei, por assim dizer, o dia. Por algum motivo, o telefone do Hotel não fez a conexão com os Estados Unidos. De repente, o sistema de segurança do banco não permitiu que a transferência se completasse. A internet ficou lenta. Quase paralisada.

Ligo para a recepção. Nabila, a recepcionista, no entanto, está fazendo um check-out. Além disso, escuto ao fundo que está sendo chamada por mais alguém. O Hotel é pequeno e carente de pessoal. Entendo que ela não poderá me ajudar. Mas, ainda assim, ela diz que vai me transferir para o setor de “Manutenção”.

Batem na porta (que está com um cartão de NO MOLESTAR ostensivamente pendurado). “Lavandería”, escuto uma voz por trás da porta. Estranho, penso. Afinal, não são nem nove horas ainda… Entreabro a porta (escondendo minha quase nudez) e recolho um pacote das mãos que se materializam dentro do quarto. Coloco o pacote sobre a cama e volto para o telefone. Não consigo completar a ligação. O “Guardião” do Itaú também recusa-se a se instalar. Internet lenta. Uma gota de suor escorre da minha testa e pinga sobre meu livro de notas (onde se lê que tenho uma reunião na Bodega em menos de uma hora).

Batem na porta. Ainda sem roupa, abro o suficiente para que minha cabeça apareça no vão. Não quero, afinal, parecer a versão brasileira do Dominique Strauss-Kahn. Mesmo porque o roupão que o Hotel oferece não me cabe! Na maçaneta, o cartão onde está escrito NO MOLESTAR balança nervosamente. A camareira pede desculpas. Pergunta se uma determinada cueca seria minha. Agita a boxer preta como se fosse uma bandeira comemorando o fim de uma corrida de Fórmula 1. Aceno que sim, agradeço, e jogo a referida cueca sobre o pacote onde está a lavanderia recém-entregue.

Corro de volta para o computador. O Guardião do Itaú ainda em execução. Tento ligar outra vez para os Estados Unidos. Nada… Batem na porta. Desta vez, um argentino enorme, com barba por fazer, boné caqui e uma caixa de ferramentas. Era da “Manutenção”. O suor já me começa a escorrer copiosamente. Com minha pequena toalha (mal) presa na cintura, cada batida na porta é um constrangimento. Mas me escondo bravamente atrás da porta e respondo à batida abrindo-a o suficiente para que apenas minha cabeça seja vista (pelo vão). O homem pede desculpas por ignorar o cartão de NO MOLESTAR mas alega ter vindo por demanda da Recepção. Me instrui a discar “00” para chamadas internacionais e, então, o número desejado, nos Estados Unidos.

Fecho a porta e volto para a mesa. Olho para o Guardião do Itaú em processo de instalação no computador. Nenhum progresso. Penso em colocar uma cueca e uma camiseta, pelo menos. Porém, as camisetas limpas estão na mala e não quero abri-la (e tampouco mexer na lavanderia recém-chegada). Tento ligar para os Estados Unidos (seguindo as novas instruções da Manutenção)… sem êxito. Passo, então, um e-mail para o Gustavo pedindo para que ele não saia de casa ainda (porque estou tentando ligar).

Então tenho a ideia (meio óbvia) de discar “0” — para “pedir linha” —, antes do “00” e, aparentemente, consigo fazer a conexão com os Estados Unidos. Sinal. O telefone começa a chamar. Mas o Guardião do Itaú está longe de se instalar. No outro telefone — o celular argentino —, já me chamam da Bodega.

Batem na porta. O cartão onde se lê NO MOLESTAR balança.

Escuto, ao longe, uma voz (de americano) em tom exaltado bradar que não sairá do hotel até que seu problema seja resolvido. Abro a porta (com a cueca nas mãos). Toalha enrolada na cintura. Ao diabo com o pudor!

A camareira, constrangida, pede para verificar se não haveria uma peça de roupas “que não fosse minha” na lavanderia recém-entregue. Peço um instante e fecho a porta. Ela bate na porta ao lado, seguindo com sua pesquisa.

O telefone do Gustavo chama. A qualquer momento ele atenderá. Meu celular argentino toca. Atendo e é da Bodega outra vez. Dizem que a pessoa que eu deveria encontrar já está lá — que chegou meia hora adiantada. Se eu não poderia me apressar. O Guardião do Itaú, rodando no computador…

Batem na porta. A camareira (assustada) pede que eu procure agora, se não fosse inconveniente. Mas não se trata de um pedido, e sim de uma súplica. Com a urgência da batida e da voz da camareira nem percebo que abri a porta de cuecas, tropeçando no fio do telefone do hotel na orelha esquerda e com o celular argentino na orelha direita. A voz americana exaltada, ainda no fundo do corredor, sempre aos brados. Desligo os telefones e vou conferir o pacote da lavanderia. Surpresa: uma cueca azul-rei desconhecida estava lá!

Abro a porta de cuecas e com a toalha enrolada no pescoço como uma écharpe. Escuto, agora, claramente:

— I am not leaving this hotel without my underpants!

A camareira, com os olhos desorbitados, me olha. Entrego a cueca da discórdia e ela sorri; mal disfarçando seu alívio. Gira e, com a peça na mão, apressa os passos em direção à voz. Constrangedor. Ser pego com a cueca alheia em um quarto de Hotel longe de casa… Uma gota de suor pinga no chão. O Guardião do Itaú continua rodando. Tento, outra vez, ligar para os Estados Unidos para discutir o destino das petit verdot.

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